Estudo para a disciplina HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA
Ao falarmos sobre rock progressivo/psicodélico, não podemos nos esquecer de citar a banda inglesa Pink Floyd, uma das precursoras do estilo. Fundada e liderada até 1968 pelo cantor e guitarrista Syd Barret, a banda é assim chamada devido a admiração de seu primeiro líder pela arte de Pink Anderson e Floyd Council, ambos músicos de blues. O comportamento estranho e imprevisível de Barret, atribuído ao constante uso de LSD, causou o seu afastamento da banda. Para substituí-lo, seus companheiros Roger Waters (baixo), Nick Mason (bateria) e Rick Wright (teclados) chamaram o guitarrista David Gilmour. Com essa mudança, o baixista tornou-se o líder do quarteto. Esta fase foi marcada pelo lançamento de álbuns clássicos, como The Dark Side of The Moon (1973), Wish You Were Here (1975) e The Wall (1979).
Após tocar em estádios lotados e contribuir para a história da música com obras-primas, Roger Waters começou a se questionar sobre tudo aquilo que tinham conquistado. Na sua visão, as pessoas iam ao show para ver o mito Pink Floyd e não mais para ouvir sua música e o que ela dizia. Em 1977, no Canadá, Waters chegou a cuspir em um fã. Frustrado, ele imaginou um show em que um muro fosse construído, separando a banda da platéia, o que simbolizava que ele fazia parte de um mundo diferente daquele do qual os fãs faziam. Assim, o conceito do The Wall foi elaborado.
O disco é marcado pelas letras amargas e pela qualidade sonora marcante, cheia de ruídos e detalhes. Começa com uma introdução à atmosfera da história. In The Flesh? é uma espécie de prólogo, o início do show que contará a história de Pink, o personagem principal do disco, que constrói um muro em torno de si para se isolar da sociedade. Não diretamente, a canção, nos segundos finais, revela a morte de seu pai na 2ª Guerra Mundial com o som de um avião em queda.
O choro de um bebê, simbolizando o nascimento de Pink, nos leva para a faixa seguinte. The Thin Ice narra os primeiros anos de vida do personagem, antes de ele ser capaz de entender o que houve com o seu pai. Dá indícios, também, da super-proteção que sua mãe lhe oferece – outro tema que será abordado adiante. A canção também faz referência aos efeitos causados pela guerra não só nas pessoas que sofreram com ela, mas também nas crianças que herdam tal sofrimento.
Em seguida, a primeira parte de uma das mais conhecidas canções da banda,
Another Brick In The Wall (
Part I). Nela, Pink, mais velho, começa a compreender a morte de seu pai, que “voou através do oceano deixando apenas uma lembrança, uma foto no álbum de família”. Desolado com a realidade, ele começa a construir o muro. Este episódio simboliza o primeiro tijolo (
Anexo 1A).
As próximas faixas tratam de um polêmico assunto: a educação, alicerce de nossa sociedade. Em
The Happiest Days of Our Lives, Pink vai para uma escola gerida por professores rigorosos e muitas vezes violentos. Segundo Roger Waters, a canção é uma reflexão de sua experiência ruim na escola. “Os professores na minha escola eram incrivelmente maus e tratavam as crianças muito mal, humilhando-as, nunca as encorajando a fazer qualquer coisa. Eles só queriam mantê-las quietas e sob controle, moldá-las como queriam”, disse ele certa vez a radio BBC. Segundo a letra, o tratamento dado aos alunos pelos professores era reflexo dos problemas que estes enfrentavam em suas vidas íntimas, com suas esposas “gordas e psicopatas”. (
Anexo 1B)
Coro de alunos contra o sistema de ensino, na versão fílmica de Alan Parker"
A próxima é a parte conhecidíssima de
Another Brick In The Wall, a segunda. É um protesto contra o rígido sistema de ensino, em geral. Para esta segunda parte, surgiu a idéia de utilizar um coro infanto-estudantil. Foram chamados os alunos da escola Islington Green, que ganhou mil libras com essa participação. Entretanto, não houve acordos sobre
royalties, o que provocou certa confusão anos mais tarde. A canção chegou a ser banida na África do Sul, pois estudantes negros a adotaram como hino do seu boicote ao sistema. É bem sabido que nos anos 70, durante o apartheid, a educação de cada criança negra – que a preparava não para a universidade, mas aos trabalhos braçais – custava ao Estado apenas um décimo de cada criança branca. Na época, estava em vigor a política da “Educação Bantu” (criada em 1953), a qual impunha: o Afrikaans como a língua de educação para os negros, escolas separadas, salas de aulas superlotadas e professores com péssima formação. A letra dá voz aos estudantes que dizem não precisar de educação (no caso, aquele tipo de educação a que estavam sujeitos) e de nenhum controle de pensamento, além de pedirem para serem deixados em paz pelos professores (
Anexo 1C). Enfim, é uma canção contra ao sistema que oprimia as crianças, ao invés de estimulá-las e inspirá-las. Canção que foi boicotada, também, pelo governo inglês, chefiado no fim da década de 1970 por Margaret Thatcher. Foi considerada uma verdadeira afronta à “postura hipócrita da moral e da sociopolítica da Coroa Inglesa”, diz Waters.
Mother é uma conversa entre Pink e sua mãe, na qual o ouvinte descobre mais sobre a super-proteção da mãe (“Mamãe te deixará aqui mesmo / Debaixo da asa dela”), que o ajuda a construir o muro que o protegerá do mundo, como é dito no verso “of course mother’s gonna help build the wall” (
Anexo 1D).
Anunciando o adeus à infância e à proteção da mãe, Goodbye Blue Sky introduz uma nova fase da vida do personagem. Os versos “The flames are all long gone / But the pain lingers on” (“As chamas todas foram embora/ Mas a dor demora a passar”) sugerem que tudo que o feriu física, mental e emocionalmente não mais faz parte da sua vida, mas as cicatrizes causadas ainda existem e doem. Cada dor é mais um tijolo no muro.
Depois de um interlúdio, Empty Spaces – no qual Pink, já crescido e casado, enfreta problemas na relação com sua mulher devido à distância, diretamente ligada ao muro que ele constrói –, a história segue com Young Lust. Segundo Roger Waters, a canção é sobre qualquer banda jovem de rock ‘n roll na estrada. Pink tornou-se um rockstar e está sempre fora de casa devido às turnês. Longe da mulher, ele sai com suas groupies, mostrando a sua necessidade de se relacionar com o sexo oposto. No fim da canção, ele descobre que sua mulher também o trai, o que contribui para o seu declínio mental. One Of My Turns, a seguinte, refere-se ao “esfriamento” que ocorreu no seu casamento, tomado pela rotina.
A depressão vem com
Don’t Leave Me Now, na qual Pink implora à sua esposa que não o deixe. A traição dela é mais um tijolo no muro, que está completo em
Another Brick In The Wall (Part 3). Enraivecido, ele decide terminar a construção, pois, como percebe, isolar-se de tudo é a única saída. Ele deseja se afastar de todos, os quais “foram apenas tijolos no muro” (
Anexo 1E). O primeiro disco termina com
Goodbye Cruel World, em que Pink despede-se da sociedade.
A segunda parte do álbum começa com a belíssima
Hey You, outra grande obra-prima. Nesta canção, o personagem percebe o erro que cometeu isolando-se da sociedade e pretende retomar o contato com o mundo além do muro, que ele não pode ouvir nem ver. Mais e mais desesperado, Pink vê que não há saída. A canção é a ponte entre seu isolamento e a adesão ao grupo fascista “The Worms” (Os Vermes). O tema será tratado adiante. Na instrumental
Is There Anybody There?, Pink tenta fazer contato além do muro. A repetição dessa pergunta (“Há alguém aí fora?”) sugere que não há resposta. Em seguida,
Nobody Home descreve a vida solitária do personagem atrás do seu muro imaginário. Não há ninguém para conversar. (
Anexo 1F).
Famosa e adorada no período da 2ª Guerra Mundial, a cantora Vera Lynn é mencionada (ironicamente, segundo Waters) na faixa seguinte, Vera. Suas canções otimistas forneciam esperanças às tropas européias, especialmente as inglesas. E é disso que essa curta faixa trata: esperança. Mas, no caso, ela se foi.
Outra curta faixa em seguida –
Bring the Back Boys Home, que, segundo Waters é sobre não deixar as pessoas irem à guerra e serem mortas – nos leva à clássica
Comfortably Numb, cujo solo de guitarra é apontado como um dos mais bonitos de todos os tempos. Nela, Pink encontra-se sob os efeitos de uma droga e é examinado por um médico, com o qual conversa. O personagem apenas consegue visualizar imagens que remetem a episódios de sua infância, que são a razão para o seu refúgio nas drogas (
Anexo 1G). Terminado o diagnóstico, o doutor aplica-lhe uma injeção. É uma canção sobre drogas, solidão e desesperança.
Em The Show Must Go On, Pink reflete sobre o que irá fazer após terminar de construir o muro. Ele está ciente de que uma vida isolada não é saudável. Ele decide que o “show tem que continuar” (metaforicamente, a vida). O estresse da constante construção leva às alucinações de In The Flesh. Esta canção é a primeira de algumas canções nas quais Pink, drogado, imagina ser um ditador fascista. Ele incita sua platéia a demonstrar a sua devoção a ele jogando para além do muro homossexuais e minorias. A multidão grita seu nome e a história segue com Run Like Hell. As pessoas vestem seus “melhores disfarces”, as máscaras de botão no rosto, que representam a alienação. É uma referência aos governos – com Pink fazendo o papel de governante, alguém como Hitler. A letra afirma que todo tipo de governo pode ser comparado ao nazismo, pois todo governo acaba alienando a população através da educação e propaganda. Quanto mais culto um cidadão, mais capacidade crítica ele terá para questionar seus representantes, cobrando mudanças e protestando contra as ações. Aí reaparece a essência de Another Brick In The Wall. Para o governo, é mais interessante controlar o que as pessoas aprendem para que elas sejam manipuláveis.
O grupo fascista The Worms aparece novamente em Waiting for The Worms, faixa que trata da luta contra o isolamento e suas causas, além de fazer referência à propaganda nazista, a qual explorava os sentimentos, o coração da massa. Hitler dizia que na propaganda tudo é permitido: mentir, inclusive. Nesta canção, há referências a martelos, que seriam o símbolo do partido, assim como a suástica era o do nazista.

Não é nada fácil lutar contra o isolamento, algo natural quando há tantas feridas na vida, como é o caso de Pink. Assim, em
Stop, a faixa mais curta do álbum, Pink se cansa de fazê-lo. Aqui, ele é preso por ser um fascista e é levado a um julgamento,
The Trial, que existe apenas em sua mente. Nesta canção, há um confronto com todos os problemas da sua vida (os quais foram apresentados no decorrer do álbum): o rígido sistema de ensino, professores abusivos, a super-proteção da mãe, a traição da esposa. Um novo personagem é apresentado ao ouvinte: o Juiz, que Pink chama de “verme”, assim como todas as outras pessoas da sua vida. Esses vermes comeram seu cérebro. O ponto final é a sentença dada: destruir o muro. A canção termina com os gritos de uma multidão (“Tear Down The Wall” / “Derrube o Muro”) e o som da barreira sendo destruída pela sociedade; não por Pink. (
Anexo 1H).
A última do álbum, Outside The Wall, trata das pessoas que estão do outro lado do muro, que amam a pessoa que está isolada. Algumas acabam desistindo. Ou seja, se você não derrubar o seu próprio muro, aqueles que tentam lhe libertar acabarão desistindo e o deixarão sozinho. Foi o que aconteceu a Pink durante a história.
The Wall termina aí, sem indicações sobre o que aconteceu com o personagem principal (um sujeito cuja vida é um abismo de perda e isolamento) após o muro ter sido destruído. Esse álbum é uma obra de protesto contra a sociedade e tudo o que ela pode fazer com uma pessoa, levando-a ao isolamento. Para Pink, o mundo estava errado. Mas para o mundo, quem estava errado era Pink.