O Duofel é um duo de sonhadores. Quando empunham seus violões, conseguem transportar toda a plateia para um mundo de sonhos musicais. Conseguem fazer com que os espectadores chorem, riem, prestem atenção. Ninguém sai durante o show. As pessoas ficam mudas e depois batem palmas com prazer. “Demos certo porque somos um casamento sem sexo”, brinca Luiz Bueno, paulistano, 58 anos, o porta-voz do duo. Enquanto seu companheiro afina a viola caipira, para o próximo número, ele conversa com a plateia. “Essa próxima música faz parte da nossa infância”, anuncia, antes de tocar Here Comes The Sun, dos Beatles. Ao seu lado, Fernando Melo, alagoano, 54 anos, sorri calado o tempo todo enquanto os refletores fazem seu rosto brilhar. Ambos vestem roupas pretas idênticas, coladas ao corpo, com gola alta. Os trajes são iguais até nos óculos de armação preta grossa. Mas a musicalidade de cada um é única e a união das duas partes forma o Duofel.A união aconteceu no fim dos anos 1970, quando eles se encontraram em uma banda de rock progressivo instrumental, a Boissucanga, que acabou por problemas financeiros. O equipamento era escasso, felizmente. “Resolvemos fazer uma coisa louca. Realmente não tínhamos a mínima noção quando decidimos fazer um som só de violões”, confessa Luiz. O som de violão do duo não é apenas um som. É uma composição. Ou várias. Sua música conta uma história, não é simplesmente improvisação. Fernando explica que “a música da improvisação é diferente. É para iniciados”. O som do Duofel é indescritível, tanto que não entra em nenhuma categoria. Luiz conta que “no disco americano, vem até escrito que é para o cara consultar o vendedor”. Eles classificam sua música como instrumental brasileira e afirmam que foi sendo construída com o tempo. O ponto de partida foi uma viagem pelo nordeste brasileiro, que durou um ano inteiro e contribuiu significativamente para a formação musical dos dois. “Isso nos fez cair na real, de que tínhamos – e temos – muito que aprender. No início, eu tocava violão de palheta, consegue imaginar?”, revela Luiz, mostrando as unhas grandes.
A essa altura, ambos já haviam largado seus empregos e viviam exclusivamente de música, como fazem até hoje. Mais do que isso, eles vivem a música. Diariamente, às 8h, comparecem à rua Dr. Cândido Espinheira, número 620, no bairro Perdizes, em São Paulo. A entrada do lugar é modesta: apenas uma porta no fundo de um corredor de cerca de cinco metros, ao lado de um restaurante. Ao penetrá-la, toda uma estrutura é revelada: três salas compõem o “complexo Duofel”, onde eles criam todos os projetos, resolvem as burocracias e ensaiam todos os dias. “É um grande barato sentar aqui e tocar todo dia”, afirma Luiz ao mostrar o estúdio próprio onde compõem e fazem gravações. “No momento estamos gravando diariamente nossos ensaios para dois shows que iremos fazer no Cavern Club, em Liverpool (Inglaterra), que será gravado e irá virar DVD”, revela animado.
A gravação do DVD será o desfecho do atual momento do duo, que lançou há seis meses o disco Duofel Plays The Beatles, só com regravações de músicas dos FabFour. Após longos 32 anos de ralação, é hora de curtir. Nos dias 19 e 20 de julho, o duo subirá no palco do Cavern Club e registrará o momento, parte do já citado DVD, que será um documentário. “Vai ser um grande barato para nós, fãs de Beatles, que vamos passar por todos os lugares marcantes na história da banda”, conta Luiz. “Esse era mais um dos nossos sonhos e vamos lá curti-lo, mostrar para todo mundo que esse é o grande barato da vida. E também que o sonho nunca acabará”, acredita.Antes de tudo isso ser possível, o Duofel enfrentou o descaso de muita gente, cenário mudado com a ajuda do “bruxo” multiinstrumentista Hermeto Pascoal, em 1993. “Ele foi a nossa grande universidade, nos deu o diploma de que precisávamos”, afirma Fernando. Após o contato com Hermeto, que os chamou para abrir uma série de shows, a carreira deslanchou de fato. Outros músicos passaram a olhá-los. Antes disso, o ápice havia sido com a versão de “Escrito nas Estrelas”, cantada por Tetê Espíndola, que ganhou o Festival dos Festivais, em 1985, na TV Globo.
Após muitos anos vivendo de música, afirmam que estão com a cabeça cheia dela. “Sexta-feira passada saímos daqui às 20h e um amigo me mandou uma mensagem
nos convidando para ir ver o show da banda do Fierro, no Ibirapuera”, conta Luiz, que continua: “Já tínhamos ensaiado o dia inteiro. Não podia mais ouvir som no dia”. Apesar do aparente cansaço, levam o trabalho muito a sério. Eles acreditam que a música em si é algo muito sério. “Ela pode te derrubar. Não é uma roupa que você troca dia após dia. É um traje que dura a vida inteira”, acredita Fernando.
Viver de arte e sonhar são as grandes motivações desses dois respeitados músicos que conquistaram tudo que sonharam em ter. São dois amantes da arte que querem, acima de tudo, “compartilhar o dom que nos foi dado”. É evidente o prazer que sentem ao fazê-lo. Acreditam que isso é o lado bom da vida. Para Luiz, “se você batalha por ele e o compartilha, tudo acontece”.
Em entrevista exclusiva, o Duofel conta tudo sobre os preparativos para a gravação do DVD no Cavern Club, explica como foi a seleção das músicas para o Plays The Beatles e avalia a recepção dos fãs dos cabeludos de Liverpool. Também aproveitam para reclamar dos discos remasterizados. Além disso, eles revelam o que vem em seguida na carreira e falam sobre a experiência com Hermeto Pascoal.
Como foi a escolha das músicas para o disco Duofel Plays The Beatles? O que levaram em conta?
LUIZ: Na verdade, começamos este projeto sem a intenção de que ele virasse um disco. Não houve um trabalho de pesquisa, nem nada do tipo porque já tocávamos algumas coisas de Beatles em dias de curtição. Diferentemente da grande maioria dos instrumentistas, não só no Brasil como no mundo, não começamos dentro do jazz. Começamos no pop, ouvindo Beatles. As músicas foram surgindo nos ensaios, onde experimentamos afinações e não há nada dirigido.
Às vezes, quando o Fernando faz determinado acorde, aquilo me lembra de alguma música. E tocamos. Depois começamos a tocar esse repertório no Ao Vivo Music [casa de shows] como curtição. Inclusive, houve músicas que surgiram lá no camarim enquanto esperávamos a hora de tocar. Instantes depois, tocamos no próprio show. Foi tudo surgindo de uma maneira muito despojada, muito diferente do que sempre fizemos.FERNANDO: É mais por lembrança. Umas deram certo e outras não porque tem o lance do duo de violões e a música precisa ter algum fundamento pra esses violões. Tem que contar uma história através dos nossos instrumentos. Às vezes pensamos que determinada música poderia ficar legal porque ela é ótima, mas pode não funcionar porque o que transmitimos através de nossos violões pode não levar a nada. Depois que resolvemos fazer o disco é que fomos trabalhar nessas canções que já tocávamos. Por incrível que pareça, apesar de não ter tido nenhuma preocupação em datar as músicas de acordo com as fases dos Beatles, no final do processo havíamos passado por todas elas.
Então a escolha foi pela sonoridade. Entrou no disco o que soava melhor, os melhores arranjos, o que combinava com o som de vocês. Não foi por preferência, gosto ou identificação.
LUIZ: Isso aí. Inclusive, tem músicas que cada um particularmente prefere e não estão nem no disco porque não deram arranjo. A música pode ser legal, aquela que todo mundo gosta, a mais tocada, cantada, mas pode não fazer sentido para nós, como linguagem. Isso vale para qualquer tipo de arranjo, para qualquer música. Tem que dar pé para a nossa linguagem. E neste disco tem a música deles, mas, mais do que a música deles, tem muito da nossa. Tem mais do que a música deles. Nós impregnamos a música deles com a nossa digital.
Em que momento vocês decidiram gravar esse disco?
LUIZ: São 32 anos de Duofel. A gente só sobrevive porque tem um grupo legal de fãs. Há uns 2 anos, fomos ver o que eles gostariam de ganhar de presente pelo aniversário de três décadas de carreira. E a maioria queria um disco de Beatles. Nós vimos que, através da música deles, poderíamos juntar outro tipo de público. Aí passamos a investir no disco.
Não estávamos errados. Estávamos muito certos. O disco está vendendo, já está na 4ª edição. É muito? Não significa muito em termos do grande mercado, mas da música instrumental significa. Inclusive já passamos as vendagens do Precioso, um disco nosso de 5 anos atrás que foi muito bem vendido. Em 6 meses, vendemos mais discos [Plays The Beatles] do que em 5 anos [Precioso]. Então decidimos juntar esse repertório que já tocávamos e ir tocá-lo em um barzinho, coisa que não fazíamos há muitos anos. Fomos como curtição mesmo. Nos demos ao prazer. Quando você começa a carreira, não se preocupa com nada, você faz isso. Depois há uma série de pensamentos que você deve ter – políticos, artísticos, sociais – e certas coisas, que antes faziam parte do seu dia a dia, começam a ser eliminadas. Pra você tocar em um bar, tem que se pensar muito. Pô, vamos tocar em um bar, cara? Bar não paga cachê. O lugar que paga cachê está vendo que estamos tocando em um bar. É uma relação esquisita. Isso pra nós que não tocamos em bar há muito tempo. O mais importante, nessa história toda, foi a oportunidade que vimos de mostrar a nossa música para um novo público.
Vocês vão tocar o disco no Cavern Club e gravar um DVD desse show. Como surgiu essa oportunidade?
LUIZ: Nós queremos fazer um DVD disso, fechar o ciclo e partir pra outra. Quem sugeriu primeiro para nós foi o pessoal do fã-clube “Revolution” que foi assistir a um show. Na ocasião, conversamos com eles: “estamos pensando em fazer um DVD, mas não sabemos como”. E um deles sugeriu: “por que vocês não fazem no Cavern?” Achamos uma boa ideia e começamos a pensar sobre isso. Cara, é algo muito difícil porque os DVDs de shows são aqueles em que as gravadoras investem milhões de dólares. Foi criado um padrão difícil de alcançar. Já havíamos feito outro DVD, de uma maneira bem tosca. Todo mundo curtiu, mas todo mundo fez a crítica de que poderia ser melhor, que poderia ter havido mais atenção nisso e naquilo. As coisas pra gente são muito difíceis. São bem batalhadas. E nesse caso do Plays The Beatles, tínhamos que descobrir um DVD que não fosse simplesmente o show. Então nós partiremos para fazer um documentário e, para ser sincero, é uma grande viagem nossa. Isso é o que a gente se dá ao prazer na vida.
Vamos curtir a viagem, conhecer a terra dos caras, onde eles nasceram. Vamos curtir a vida, entende? É bem isso. E vamos levar um grande grupo conosco.Como fica essa questão financeira?
LUIZ: Isso é um papo de maluco porque estamos sem um tostão e o projeto é caríssimo. Mesmo assim vamos fazer. Já pedimos empréstimo no banco, como toda boa empresa. E agora é mandar bala, fazer o DVD, que vai custar caro, mas tem um dado muito positivo: ele tem uma energia muito legal, que pode ser percebida antes mesmo de ser feito.
O DVD, então, vai ser um documentário dessa viagem, desse grupo visitando determinados pontos que foram marcantes, que tenham a ver com a música dos Beatles?
LUIZ: Sim, nós vamos fazer isso. Vamos lá tocar nessa porra desse Cavern, que é um grande barato. É nosso sonho de moleque. Há toda uma expectativa. Nós vamos fazer um documentário sobre a história do sonho. Hoje, que temos 32 anos de carreira, sabemos que o bom da vida é compartilhar seu dom, seu talento. Se você batalha por ele e o compartilha, tudo acontece. Se todos se ocupassem com seus talentos naturais, todo mundo ia ser feliz. Pelo menos estaríamos mais próximos de sermos uma sociedade vibrante de maneira positiva. Nós largamos mão de coisas. O Fernando veio de Alagoas, de uma família de políticos, uma família boa, em que todos vivem muito bem. Ele poderia ter ficado em casa, mas largou a família e veio para São Paulo atrás do seu sonho. Eu também. Tenho minha formação de arquiteto. Ganhava dinheiro na prefeitura. Todos meus colegas de sala hoje têm casa no Jardim Europa e vivem de renda, mas eu não. Larguei isso em busca de um sonho, que é nada mais, nada menos, ir de encontro ao meu dom.
Esse movimento que você faz em busca do seu dom é impressionante. Nós vamos lá curtir mais um sonho pra provar pra todo mundo que esse é o grande barato e que o sonho nunca acabará. Vai ter também depoimentos de gente aqui do Brasil e de fora.
Como foi para conseguir o espaço para tocar lá no Cavern?
LUIZ: Tudo é muito fácil quando você tem 32 anos de carreira, já lançou CDs e ganhou prêmios. As coisas são assim. Já tocamos nos melhores lugares do mundo, nos maiores palcos. Temos um nome super respeitado no Brasil e fora daqui. Em cima disso, é fácil conseguir as coisas. Colocamos essa nossa estrutura aqui [refere-se ao escritório e à produtora] para funcionar. Vamos tocar nos dias 19 e 20 de julho.
Como tem sido a recepção dos fãs de Beatles?
LUIZ: Os fãs mais fanáticos têm vindo falar pra gente que gostaram muito, que é uma pena dois deles [dos Beatles] já terem morrido porque não irão nos ouvir. Isso vindo de uma pessoa que gosta de música é OK, mas vindo de um cara que é fanático por Beatles é muito do cacete! Quem gosta de Beatles gosta dos caras tocando, não gosta dos outros (risos). Tem cara que, no nosso show, espera todo mundo ir embora pra ir falar pra gente o seguinte: “Tô aqui pra te dizer que não ouvi nenhuma versão de Beatles que valesse a pena. NENHUMA.” Aí você pensa que o cara vai te dar um soco em seguida, mas ele fala: “Mas a de vocês é DEMAIS! Achei muito louco porque ninguém canta e tem tudo da música deles. Vocês não perderam o lance das músicas dos caras”.
Vocês acham que isso de “não perder o lance” se deve a que?
LUIZ: Isso é interessante porque se você pega uma música deles e compara com a nossa versão, dá pra ver que é muito diferente. Acho que isso é porque a gente não parou pra estudar as músicas. Elas vêm muito de dentro, das lembranças, como o Fernando falou. Para nós, Beatles é uma sonoridade. O grande barato é a sonoridade que eles conseguiram, que era muito única. Isso mexeu com a gente ainda garotos. Eu não gosto dos discos remasterizados. Quando eu ouço, vejo que tiraram um lance em algum lugar ali, que pode ser uma guitarra que faz um couomcoum [imita o som]. Sumiu dali! O cara tirou isso e isso é que dá o lance! Eles tinham essa questão da sonoridade e a cada álbum era uma nova sonoridade, o que é muito incrível.
FERNANDO: As limitações da época e o próprio momento contribuíram pra isso. Tinha muita coisa aflorando, muita coisa boa acontecendo. O declínio do grande mercado começou depois dos anos 70, quando as pessoas começam a só pensar em fazer dinheiro, não arte. Nesse momento surgem as grandes gravadoras. E taí o resultado: todos quebrados, pois isso não permanece! O que permanece é aquilo que você tem de verdadeiro. Principalmente na década de 80, a juventude toda queria fazer sucesso logo de cara, no primeiro disco. Que nem no Big Brother. Eles querem entrar lá e ganhar muito dinheiro, não querem construir uma carreira. Tanto que muitos pararam no primeiro, no segundo disco e ninguém nunca mais ouviu falar. Falta criar uma estrutura. O Duofel, antes de ser Duofel, ficou viajando um ano pelo Brasil à procura de uma essência, se fortalecendo para aí termos história pra contar. A música é tudo e você vai montando ela, sem pressa alguma. Por outro lado, como fazemos música instrumental e não há aquela obrigatoriedade, de repente dos cantores, de fazer um disco por ano porque precisa tocar no rádio, na novela. Isso nos fortalece porque ficamos livres pra fazer a música que sai de dentro de nós. Não aquilo que está na moda, aquilo que se você não fizer, estará por fora. Quando começamos, os caras que faziam música instrumental falavam que não ia dar certo porque todo mundo fazia outro tipo de música, o qual nós não estávamos fazendo. Vimos que a coisa mudou, não é? Taí a gente sobrevivendo: são 32 anos de carreira, vários CDs gravados, prêmios. E os caras que disseram aquilo não deram certo (risos). Inclusive fizemos um disco e convidamos vários deles para participar. A música é assim. Tem que sempre levar a sério porque ela é muito séria, pode derrubar você. Não é uma roupa que você troca dia após dia. É um traje que dura a vida inteira.
Quanto à recepção do público brasileiro, em geral, como tem sido? E em relação ao público do exterior como é?
LUIZ: O brasileiro é tão igual, tão bom quanto. O que eu posso dizer com bastante segurança é que o brasileiro, quanto mais simples, mais musical ele é, mais respeito ele tem pela música.
FERNANDO: Não existe aquela coisa de que o europeu percebe essa musica melhor, que tem a cabeça mais aberta pra esse tipo de coisa. Não é assim. Isso é uma ilusão. Músicos que vão lá pra fora porque “lá vão me entender”, vão pra lá dançar. Não tem mercado. O mercado brasileiro se abre muito mais pra música estrangeira do que o mercado estrangeiro se abre pra música brasileira.
LUIZ: E um lance interessante é que a nossa música, como falamos, conta uma história. Não é uma música de improvisação.
FERNANDO: A música de improviso é diferente. É para iniciados, digamos assim.
LUIZ: Tá valendo, mas a nossa música tem outro lado, tem uma história. A gente conduz o show, em qualquer lugar do mundo. Sempre colocamos o espectador de uma maneira que gostaríamos que ele recebesse as nossas músicas. Então a gente conta as histórias das músicas.
Nosso show tem uma coisa que aprendemos há alguns anos com o pessoal do teatro, que é a curva dramática. Ele tem uma curva que a gente decide antes do show: o que queremos para esse show? Não é só tocar. E agora tem o lance de viajar para a infância. Coisas assim que colocamos no show. Nós tocamos várias vezes em lugares nos quais as pessoas não têm nem o que vestir: sertão do nordeste, por exemplo. E, cara, é um negócio muito louco. É realmente difícil entender, só estando lá para ver. Ninguém sai durante o show. As pessoas ficam mudas. Você escuta as moscas voando de tanto silêncio que as pessoas fazem. E falo isso quando tocamos ao vivo, em praça pública. É um absurdo. Ninguém vai embora! Não tem dinheiro nem pra comer e vem com dez reais querendo comprar o nosso disco! Acho isso o máximo. Mostra que quando a música é verdadeira, quando qualquer arte é verdadeira, tem sempre alguém esperando por ela, não tenha dúvida. E se a arte tem mais elementos que transitam com aquele lugar onde você tá (no nosso caso, o Brasil), ela tem uma aceitação muito fácil. É surpreendente.
No caso dos Beatles, estamos utilizando a música deles para chegar às pessoas. Mas isso não quer dizer que você vai segurar uma platéia. Nós levamos o público, dentro desse show, para um passeio, como costumamos dizer. Vão passear com a gente, cara. Enquanto tiver na turnê, não pode sair (risos). E as pessoas vão, elas se deixam levar pela música. Tem alguma coisa lá que está segurando.
Fomos fazer o Festival de Montreau e lá ninguém presta atenção em show nenhum, cara. No show que aconteceu no SESC de São José dos Campos, havia uma senhora na primeira fila fazendo tricô. Eu achei um barato. De vez em quando ela parava de tricotar pra prestar atenção na música. Fiquei prestando muita atenção nela pra ver quando que ela ia parar o tricô. E de repente ela pára o tricô. Aí acontece algo e ela volta ao seu tricô. E aí você vai pra Montreau e imagina a platéia de 3 mil pessoas, que deve fazer mais barulho do que se fosse na praça da Sé. Não! Ninguém pára. Todo mundo fica entrando e saindo. É curtição de lugar de badalação. Não é pra curtir som. É um paradoxo fodido.
É a Meca do jazz e para nós foi uma experiência horrorosa. Aí você pensa: “No templo da música, toca-se a pior música”. E lá está a pior platéia do mundo – ela não vai lá pra curtir som. Então é um grande engodo. É aí que você tem que prestar atenção e se perguntar o que está acontecendo. Ir pra Montreau é isso, cara?
No momento, vocês estão focados no DVD. Como estão sendo os preparativos?
LUIZ: Como iremos gravar o show, estamos simulando essa gravação diariamente aqui no nosso estúdio, com o nosso técnico. Estamos pegando todo o nosso equipamento e colocando ele de uma certa maneira, otimizando para gravar e estudando como iremos fazer. Fazer isso aqui no Brasil, com uma equipe brasileira, é uma coisa. Fazer no exterior, é outra coisa. Então estamos nos preparando para isso: para chegar lá e já estar tudo pressetado. Quando chegar lá, não vamos passar o som, testar as coisas. Vamos orientar a equipe de lá para fazer isso, isso e aquilo. Isso facilita muito porque no Cavern Club acontece um show atrás do outro, o dia inteiro, todos os dias. Então nós vamos tocar às 13h, quando o bar abre, porque aí temos a manhã inteira pra arranjar esse palco pra deixar prontinho para gravar. Ensaiar todo dia é um grande barato porque estamos visualizando o show para que, quando acontecer, possamos deitar e rolar. Pra isso, tem que haver preparação, senão vamos dançar e rolar, entende?
Não acaba enjoando?
LUIZ: A gente está fazendo um negócio que é muito prazeroso! Estamos concentrados nisso porque gostamos disso. Temos um puta prazer em sentar ali todo dia e apurar cada música, além do som de todo o equipamento. Quando o cara lá falar “Gravando!”, vamos ter a certeza de que estamos lá com o sinal certinho. Já fizemos várias gravações ao vivo aqui no Brasil e dançamos bonito. Chega na hora da mixagem e o cara fala: “Porra, a linha tal está estourando!”.
FERNANDO: Ou é o microfone que não funciona. Aí o cara: “Não tinha como parar a gravação, por isso não falei antes”.
LUIZ: Então são essas coisas que estamos tentando com o nosso conhecimento, com a experiência – que é a parte boa de ser mais velho. Estamos gravando todos os dias o show inteiro! Vamos chegar lá tinindo e isso é um grande barato.
FERNANDO: É como se fosse uma partida de futebol. Uma única partida, em que temos que fazer todos os gols. Não pode ter bola na trave. E tem que estar bem. Nem todo dia você acorda do mesmo jeito. Sua risada muda, às vezes nem ri. Chora. No dia, você tem que estar bem, cara. Tem que estar tocando bem. Então vamos pra lá para fazer o melhor disco possível. Por isso essa preocupação, tantos ensaios.
Esse DVD, como vocês disseram, fecha um ciclo. O que vem depois disso?
LUIZ: O que vem em seguida é a Ópera Instrumental – Crianças do Brasil, com orquestra sinfônica. Já temos também um disco pronto para o ano que vem, ou para o outro. Queremos juntar um povo aí com esse lance dos Beatles e depois levá-los para ver a nossa ópera, que fala sobre as crianças do Brasil, crianças de rua, dos anos 90, que hoje são os nossos bandidos aí tomando conta de tudo que é nosso. Esse trabalho já está todo pronto, arranjado e já foi aprovado via Lei Rouanet. Essas coisas levam bastante tempo para se realizarem, por isso começamos um tempo antes, como estamos fazendo com esse disco. Até arrumar alguém que banque é um caminho árduo. Então, por enquanto é isso que está rolando. E já é coisa pra caramba. É todo dia estamos ensaiando e está melhor a cada dia! Ainda falta um mês para gravar, mas se fosse amanhã já estaríamos prontos para entrar e gravar.
Para finalizar, voltando um pouco na história de vocês, como foi a experiência com o Hermeto Pascoal?
LUIZ: Costumamos dizer que o Hermeto foi a universidade que freqüentamos. Ele vem num momento bastante interessante da nossa carreira. Primeiro porque, como o Fernando acabou de dizer, nós fazíamos uma música muito própria. E por mais difícil e distante que possa parecer, os músicos não tem aquela cabeça tão aberta como se presume. Tem uma guerra de egos muito grande dentro desse ambiente, principalmente dos músicos como nós que vivem do espetáculo.
Então, o Hermeto surgiu em 1993. Conhecemo-lo desde o começo da carreira, mas em 1993 é que ele aparece para nos ajudar bastante. Dizemos que foi o momento em que entramos para a universidade porque ele deu o diploma que precisávamos. Ele foi o nosso TCC [Trabalho de Conclusão de Curso]. Ele faz parte da banca e quando assina “Ó, esses caras passaram com louvor” todo mundo passou a aceitar a nossa música, que não tem improvisação.
A gente não vai pro palco pra desenvolver tema e improvisar. Temos uma ideia mais fechada de música. Dá pra improvisar? Até dá, mas em geral, se um cara quiser tocar com a gente, vai ter que vir aqui ensaiar conosco uns 10 dias senão ele não vai conseguir. Primeiro porque nós, em dois, temos que fazer várias partes: percussiva, rítmica, de harmonia, de melodia e, além de tudo, a gente interage. A diferença entre um duo e uma dupla é exatamente essa. A dupla: um acompanha e o outro sola. Em um duo, há uma interação. A gente vai trocando diferentes papeis. Depois de muitos anos, você vai desenvolvendo uma maneira muito própria de fazer isso. E quando entra outra pessoa para tocar, não há espaço para ela. Se formos chamar um percussionista, quem estiver com a parte mais percussiva terá que deixar de fazer, para que o cara possa aparecer.
Enfim, como fazíamos uma música mais fechada, não tinha como ter interação com outros músicos. E, por outro lado, de alguma maneira, nossa música agradava a platéias. E quando a música agrada a platéia, os outros músicos querem participar dessa música também. Mas como não tinha muita possibilidade, o mais fácil foi começar uma história de os músicos se predisporem em relação a nossa música, entende? Ou seja, o Duofel não está na turma do jazz, não tá na turma da MPB, nem na do pop, nem do rock e muito menos na do erudito. Ficamos sem categoria. Nós estamos fora do nicho de venda. Está dentro da linguagem da música instrumental brasileira. Mesmo assim, as pessoas tinham vontade de catalogar.
Quando o Hermeto aparece, em 93, ele pede pra gente abrir o show dele. E começa a nos chamar pra abrir os shows dele. Nessa convivência, ele falava: “Eu vou ajudar vocês, senão vocês estão lascados porque vocês fazem uma música muito personalizada, muito forte. A música de vocês é única e quando surge uma música assim, alguém tem que ajudar”. Ele tinha razão. Tanto é que, a partir do momento que ele coloca a gente pra tocar nos shows dele, nosso nome começou a se elevar bastante. Todos os outros músicos que condenavam a nossa música pararam pra ouvir. “Pô, que o Hermeto viu ali que eu não vejo?”, pensaram. E aí começam a prestar mais atenção na nossa música.
O fato de que sempre que lançávamos um disco, estávamos concorrendo ou como “melhor música” ou “melhor cd”, também traz na categoria do musical um olhar diferente pra nossa música. Então, aí começamos a perceber isso. Deu uma sobrevida pra nós, realmente. Então foi uma experiência muito legal, muito grande mesmo. Abriu nossas portas lá fora do Brasil.
Estar associado ao nome do Hermeto é um belo de um crachá, entende? Nós fomos apresentados ao Herbie Hancock, na Europa, e o cara já tinha ouvido falar na gente. Fomos apresentados da seguinte maneira: “Tão aqui esses dois caras, são violonistas brasileiros que têm uma música única, igual à sua”. Aí o Herbie: “Ó, que legal”. Quando falam “São amigos do Hermeto”, o cara se espanta “ohhhh”. E muda tudo. Todos os grandes músicos que fomos procurar, ao citarmos o Hermeto, nos abriam as portas. Então o Hermeto abriu essa porta do céu pra nós. E pra gente, que não estudou nada, ele foi a grande universidade; o cara que deu o diploma pra gente seguir na vida.







Quando vi o Duofel tocando Beatles pela primeira vez, em Moema, há quase 2 anos, fiquei simplesmente pasmo. Não era possível que apenas dois violões fizessem um som tão completo e complexo. Fiquei ansioso pelo CD, que veio quase um depois e confirmou tudo o que eu havia sentido. Ainda os vi mais 2 vezes, uma delas no Auditório do Ibirapuera, que foi um êxtase. Tenho certeza que esse DVD que será gravado no Cavern Club virá coroar um trabalho de extrema qualidade e bom gosto.
ResponderExcluirSucesso, Luiz e Fernando!!!