segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Apocalypse das Trevas Now




Análise de transposição de obras literárias para o cinema. "Coração das Trevas" (Joseph Conrad) X "Apocalypse Now" (Francis Ford Coppola) 
    
     Fazer uma versão fílmica para um livro não é tarefa das mais simples. Há muitos detalhes que devem ser observados, além da necessidade de ser um tanto fiel à obra. Querendo ou não, muitas vezes são os leitores os maiores espectadores da versão cinematográfica. Mas e quando um livro inspira um filme? É o que ocorre em Apocalypse Now, do renomado diretor Francis Ford Coppola, inspirado no livro Coração das Trevas, de Joseph Conrad.
     Há diferenças entre as versões, pois não se trata de uma adaptação. Elas começam com a época e o ambiente em que as histórias se desenrolam. Conrad escreveu sobre uma jornada através de um rio “grande e caudaloso, que lembrava uma serpente desenrolada” no coração da África. Mais exatamente no Congo, o único espaço pintado de amarelo nos mapas do século 19, o que significava serem aquelas terras uma colônia belga, a única do continente, apesar de ele não explicitar.
     Coppola transportou a história dos tempos coloniais para os anos 70, durante a guerra do Vietnã. A expedição narrada no filme ocorre em um rio daquele país e o objetivo é encontrar Kurtz (Marlon Brando), grande coronel do exército americano. Na versão literária, o personagem é um grande chefe de posto de uma empresa mercantil de marfim. Assim como no filme, sempre se referem a ele com respeito e até admiração. O diretor foi brilhante, nesse ponto, ao ser fiel ao livro que o inspirou; fazendo as devidas adaptações. Kurtz enlouquece em meio ao horror em que vive e acaba desertando de suas, criando seu próprio império e comandando seu próprio exército. A sua figura, durante a viagem, é desconhecida do comandante da missão, narrador da história nas duas obras, apesar de serem personagens diferentes.
     Na obra de Conrad, quem busca Kurtz é o experiente navegador Marlow, enquanto no filme, é o capitão Willard (Martin Sheen), que há muito esperava ser convocado para uma missão. Ambos vão conhecendo o homem que procuram, no caminho. Marlow, através de relatos, e Willard, de um dossiê preparado pelo exército americano. O interesse de ambos pela figura do homem que procuram cresce à medida que eles sobem o rio.
    Desde o começo, em ambas as obras, comportamentos e fatos insanos são mostrados constantemente, indicando que o percurso leva os barcos ao centro do horror, à sua raiz, cuja proximidade é evidenciada por cenas cheias de neblina e fumaça. A cada milha navegada, a acusação a Kurtz faz menos sentido para Willard. Ninguém tem mais idéia do porquê daquela guerra. A loucura se apodera do corpo social americano. Assim, é interessante notar a crítica de Coppola à Guerra do Vietnã, desnecessária e brutal, assim como a colonização européia no continente africano, bem retratada no livro de Conrad. A essência está lá: o tratamento desumano dado aos nativos, a selvageria, a insanidade que acomete a todos, “a face mais selvagem do capitalismo”.
     Em certo momento do filme, após um bombardeio, o coronel Kilgore (Robert Duval) e o soldado surfista Lance (Sam Bottons) conversam. Entre observações sobre arrebentações de ondas, o coronel diz adorar o cheiro que de Napalm pela manhã. (Veja a cena aqui) Napalm é um explosivo que foi muito usado nesta guerra. Este mesmo bombardeio é realizado ao som da ópera “Cavalgada das Valquírias”, de Richard Wagner, executada em um alto-falante instalado em um helicóptero.  Bombardeio, aliás, realizado para que o próprio coronel e seus soldados pudessem surfar naquelas águas controladas pelos vietcongues. Este é um exemplo de cena que foi incluída no filme para caracterizar as atrocidades cometidas.

Apocalypse Now - The Ride Of The Valkyries


     O horror exacerbado da película contrasta com a tímida narração de Marlow. Ele é considerado um narrador medíocre, pois o seu relato parece não falar de nada. Ou melhor, parece esconder as atrocidades do sistema colonialista. Contudo, “é difícil conter a suspeita de que Conrad declara o que pensa ou o que quer que se pense que ele pensa” (O Redemunho do Horror, Luiz Costa Lima - cap.3, pág.217), afinal, “a história narrada por Marlow se fundava na experiência do próprio autor”.
     É bem notável a semelhança da estrutura densa e sombria em ambas as obras. Isso fica evidente, no filme, pela fotografia obscura, principalmente quando o coronel Kurtz aparece. Na verdade, o ator Marlon Brando pediu para que, quando aparecesse, fosse na penumbra. Ele estava obeso, na época, e queria esconder isso, o que acabou conferindo um ar misterioso ao personagem.
     A magnífica trilha sonora coroa essa obra de arte do cinema. O filme começa e termina ao som de “The End”, do The Doors. Assim como esta, todas as outras músicas contribuem para que o espectador sinta a emoção da cena, vermelha como as explosões, verde como a densa selva.
     Com uma bela montagem, Apocalypse Now tornou-se um clássico do cinema ao mostrar a desumanidade de uma guerra desnecessária. Coração das Trevas é um livro complexo e que exige muita atenção do leitor, apesar de pequeno. São obras de arte que se complementam e que tratam o tempo todo da brutalidade. Do horror.


Leia o livro aqui.
Veja o trailer original do filme aqui.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Larápio silencioso

     Hora do almoço, milhões de paulistanos se deslocam pela cidade durante a pausa do meio dia. Os ônibus, já lotados normalmente, mais e mais se enchem de gente. É a oportunidade perfeita para a ação de ladrões silenciosos. Quem utiliza habitualmente linhas que percorrem a rua da Consolação e as avenidas Rebouças e Paulista, em São Paulo, provavelmente já viu um sujeito alto, magro, negro e bem vestido. Aliás, dezenas deles. E um desses sujeitos aproveita-se da situação de lotação, além da aparência comum, para praticar pequenos furtos.
     O homem com essas características entra no ônibus, paga os R$2,30 da passagem, passa pela catraca (cuja pintura está gasta) e espera pela melhor oportunidade. Os passageiros se distraem, conversam, ouvem música ou lêem o jornal na esperança de que o próximo ponto chegue logo. Ele olha para todos os lados, como se estivesse procurando algo. Uma mocinha de uns 19 anos conversa com o namorado. Ela é baixa, branca, tem bochechas grandes e usa uma bolsa azul e estampada a tira colo. Seu celular toca. A garota abre a bolsa e deixa-a semiaberta após procurar pelo telefone e atendê-lo. O namorado, baixo e barbudo, presta atenção no trânsito. Eles estão perto da porta à espera do próximo ponto. O homem se aproxima, segurando seu paletó no braço direito, deixando, assim, as mãos livres. Disfarçadamente, ele coloca a mão direita dentro da bolsa da menina à procura de algo valioso fácil de pegar. O namorado percebe e fita-o incrédulo, paralisado, sem ação. A menina continua falando ao celular e nem percebe que acabou de perder uma nota de R$20, que o ladrão acabara de colocar no bolso da sua calça social preta. Ele, ao ver que tinha sido flagrado pelo namorado da moça, o qual ainda fitava-o, arregala os olhos e se faz de inocente. O garoto barbudo, com os olhos fixos no gatuno, chama a menina pelo nome, alertando-a do perigo. O homem fica nervoso e repete algumas vezes numa voz trêmula: “Senhor?”. O ônibus chega à parada Brasil e o casal desce, sem ação alguma. E lá se vai o larápio silencioso e bem vestido pronto para fazer outras vítimas.