♦ Martelato em ação, na rua da Consolação
Munido de seu sax e um chapéu, onde as gorjetas são colocadas, João Luciano da Silva, de 55 anos, chama a atenção de quem passa pela esquina da avenida Angélica com a Higienópolis. Semanal-mente, o músico, que prefere ser chamado de Martelato, toca nesse ilustre bairro da capital paulista. Professor de trompete, bandolim, violão, saxofone e flauta, Martelato toca há mais de trinta anos na rua, onde ganha uns trocados “para comer alguma coisa”. Carregando no peito uma placa com os dizeres “Exija música ao vivo”, o músico de rua fala sobre sua vida musical e acusa os DJs de roubarem o espaço de instrumentistas como ele. Além disso, ele critica duramente a Ordem dos Músicos do Brasil, criada em 1964 durante o regime militar, por ser uma espécie de “rapa” dos músicos.
Como começou a sua trajetória musical?
Comecei tocando em 1964 nas ruas de Pernambuco, estado onde nasci. Dois anos depois, vim para São Paulo, onde toquei no quartel, nas bandas do exército. Não me adaptei à vida militar porque já nasci comunista, vermelho até a alma. E não tinha como, naquela época, eu permanecer no regime militar. Filiei-me ao PT e participei muito das atividades dos sindicatos, como greves e passeatas. Sempre defendendo os músicos e metendo o cacete na pilantragem, nos safados que vivem na moleza.
Desde quando o sr. toca na rua?
Comecei tocando em 1964 nas ruas de Pernambuco, estado onde nasci. Dois anos depois, vim para São Paulo, onde toquei no quartel, nas bandas do exército. Não me adaptei à vida militar porque já nasci comunista, vermelho até a alma. E não tinha como, naquela época, eu permanecer no regime militar. Filiei-me ao PT e participei muito das atividades dos sindicatos, como greves e passeatas. Sempre defendendo os músicos e metendo o cacete na pilantragem, nos safados que vivem na moleza.
Desde quando o sr. toca na rua?
Desde quando eu nasci. Eu tocava na banda do exército, nas fanfarras, nas bandas marciais, nas bandas que tocavam nos colégios, praças, coretos, festas, nos carnavais de rua, tudo na rua. A cultura do Brasil sempre foi na rua. Depois que inventaram o teatro, o circo.
Por que tocar na rua hoje?
Por que tocar na rua hoje?
Porque leva mais cultura à população, que é carente disso. Há muita baboseira em termos de composição por aí. As emissoras de rádio e televisão não conseguem mais tocar música com sabor de música, com melodias. Então eles são obrigados a entrar no comércio, onde os falsos músicos e compositores inventam músicas que não existem com letras imorais. Essas emissoras não dão chance para a verdadeira música. É sempre na base do jabá: você paga para se apresentar no rádio ou na televisão. Não interessa se você tem talento ou dom musical, basta que você pague para conseguir o espaço. Aí que acontece a injustiça com nós que estudamos música, que nos dedicamos.
Qual o tipo de música o sr. toca?
Qual o tipo de música o sr. toca?
Qualquer tipo de música. Toco muito jazz, rock, samba, música clássica, dos Beatles a Roberto Carlos. Eu monto meu repertório há mais de trinta anos, então não tem como saber quantas músicas são. O que você pedir eu toco, até essas porcarias que rolam por aí. Pagando, não é? Sou profissional, sindicalizado e com a carteira da Ordem.
Como é a união dos músicos brasileiros?
Nós somos profissionais inscritos na Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), que foi criada em 1964, vinte anos depois do Sindicato dos Músicos, que protege a categoria. Ele ajuda com a parte jurídica, além de oferecer auxílio médico e odontológico. A Ordem já é mais um negócio do Governo para multar o Sindicato, em 20% do imposto sindical, e mesmo para constranger o músico com esse papo de fiscalizar a profissão e/ou discipliná-la. O músico não gosta da Ordem, pois ela não oferece nada a ele a não ser a “permissão para tocar”. Antes de ela existir, o Sindicato, que existe desde 1940, já nos permitia tocar na rua.
Nós somos profissionais inscritos na Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), que foi criada em 1964, vinte anos depois do Sindicato dos Músicos, que protege a categoria. Ele ajuda com a parte jurídica, além de oferecer auxílio médico e odontológico. A Ordem já é mais um negócio do Governo para multar o Sindicato, em 20% do imposto sindical, e mesmo para constranger o músico com esse papo de fiscalizar a profissão e/ou discipliná-la. O músico não gosta da Ordem, pois ela não oferece nada a ele a não ser a “permissão para tocar”. Antes de ela existir, o Sindicato, que existe desde 1940, já nos permitia tocar na rua.
O sr. paga algum valor para ser filiado ao Sindicato?
Sim, há uma taxa de R$10 por mês, além do imposto sindical. Pago também, contra a minha vontade [enfatiza], sem nenhum prazer, a anuidade da OMB, que é uma espécie de “rapa” dos músicos. Já o Sindicato é uma beleza. O “rapa” não, é constrangedor.
Sim, há uma taxa de R$10 por mês, além do imposto sindical. Pago também, contra a minha vontade [enfatiza], sem nenhum prazer, a anuidade da OMB, que é uma espécie de “rapa” dos músicos. Já o Sindicato é uma beleza. O “rapa” não, é constrangedor.
A anuidade não se reverte em nenhum benefício?
Não. A Ordem só multa os Sindicatos em 20%, que é o imposto sindical. Esse dinheiro todo vai para o Conselho Federal e é gasto com funcionários estranhos à categoria musical. Nenhum ali é músico, assim como os fiscais, que apenas sabem nos constranger. Você entra na Ordem e os diretores nunca estão lá, os conselheiros idem. Os que estão lá só sabem mandar, são pessoas que nos empurram e ameaçam com excesso de autoridade. É tudo obra do regime militar que colocou esses abusados no poder e lá eles ainda estão. Só tem safadeza.
Não. A Ordem só multa os Sindicatos em 20%, que é o imposto sindical. Esse dinheiro todo vai para o Conselho Federal e é gasto com funcionários estranhos à categoria musical. Nenhum ali é músico, assim como os fiscais, que apenas sabem nos constranger. Você entra na Ordem e os diretores nunca estão lá, os conselheiros idem. Os que estão lá só sabem mandar, são pessoas que nos empurram e ameaçam com excesso de autoridade. É tudo obra do regime militar que colocou esses abusados no poder e lá eles ainda estão. Só tem safadeza.
O sr. conhece o ex-presidente da OMB Wilson Sandoli?
Conheço. Ele foi o único defensor dos músicos. Ele inventou, com muita propriedade, essa frase [apontando para a placa que carrega no peito e nas costas]: “Exija música ao vivo”. Ele lutou muito em defesa da música instrumental. O Sr.Wilson defendeu o musico profissional durante toda a sua vida no Brasil, principalmente aqui no Estado de São Paulo. A categoria dos profissionais legítimos, aqueles que estudaram, o ama. Quem nunca estudou e que não dá valor à faculdade de música e aos conservatórios pode não ter muita simpatia por ele.
Conheço. Ele foi o único defensor dos músicos. Ele inventou, com muita propriedade, essa frase [apontando para a placa que carrega no peito e nas costas]: “Exija música ao vivo”. Ele lutou muito em defesa da música instrumental. O Sr.Wilson defendeu o musico profissional durante toda a sua vida no Brasil, principalmente aqui no Estado de São Paulo. A categoria dos profissionais legítimos, aqueles que estudaram, o ama. Quem nunca estudou e que não dá valor à faculdade de música e aos conservatórios pode não ter muita simpatia por ele.
Dá pra viver de música?
Até dá. Antes do playback ou dos DJs era melhor. A nossa vida era até invejável. Hoje vivemos precariamente, estamos numa crise, não é? A juventude atual não se liga em cultura. E o futebol está em alta. A população prefere a violência do futebol. Veja bem o que aconteceu nessa madrugada depois que o Timão ganhou [Ele se refere ao ônibus da torcida vascaína que foi queimado pela corintiana após o jogo e ao torcedor morto com um tiro em uma briga entre torcedores antes da partida].
Até dá. Antes do playback ou dos DJs era melhor. A nossa vida era até invejável. Hoje vivemos precariamente, estamos numa crise, não é? A juventude atual não se liga em cultura. E o futebol está em alta. A população prefere a violência do futebol. Veja bem o que aconteceu nessa madrugada depois que o Timão ganhou [Ele se refere ao ônibus da torcida vascaína que foi queimado pela corintiana após o jogo e ao torcedor morto com um tiro em uma briga entre torcedores antes da partida].
Não é exagero? Não pode generalizar...
Não, futebol gera violência. Veja bem, no país temos duas maldições bem caracterizadas: o excesso de religiões mentirosas que há por aí que ganham dinheiro em cima dos fiéis e o futebol. Com isso, o Brasil vai cada vez mais pra baixo porque o futebol não leva a nada e a religião a canto nenhum.
Não, futebol gera violência. Veja bem, no país temos duas maldições bem caracterizadas: o excesso de religiões mentirosas que há por aí que ganham dinheiro em cima dos fiéis e o futebol. Com isso, o Brasil vai cada vez mais pra baixo porque o futebol não leva a nada e a religião a canto nenhum.
Voltando à música, como o sr. acha que a situação dos músicos poderia ser revertida?
Primeira coisa que nós queremos e reivindicamos, com o apoio do Sindicato dos Músicos, seria música ao vivo nas emissoras de rádio e televisão. O disco foi feito para se ouvir em casa e não no rádio. Se os músicos tocassem ao vivo no rádio, eles iriam ganhar muito com isso. A pessoa teria que ter talento pra se apresentar e não poderia ficar fazendo mímica, nem tocando disco “falso”. A maioria dos discos que são tocados por aí são falsos: o produtor compra a música de uma pessoa e coloca a voz e o nome do suposto artista, que usa playback para se apresentar. Os DJs são grandes culpados também pela situação do músico hoje. Eles passam a mão num disco, apertam uns botões e dizem que estão fazendo música. Está cheio de falsos músicos por aí. O Sindicato está tomando conta disso, já que a OMB não faz nada, só se acovarda.
Primeira coisa que nós queremos e reivindicamos, com o apoio do Sindicato dos Músicos, seria música ao vivo nas emissoras de rádio e televisão. O disco foi feito para se ouvir em casa e não no rádio. Se os músicos tocassem ao vivo no rádio, eles iriam ganhar muito com isso. A pessoa teria que ter talento pra se apresentar e não poderia ficar fazendo mímica, nem tocando disco “falso”. A maioria dos discos que são tocados por aí são falsos: o produtor compra a música de uma pessoa e coloca a voz e o nome do suposto artista, que usa playback para se apresentar. Os DJs são grandes culpados também pela situação do músico hoje. Eles passam a mão num disco, apertam uns botões e dizem que estão fazendo música. Está cheio de falsos músicos por aí. O Sindicato está tomando conta disso, já que a OMB não faz nada, só se acovarda.
estou a pouco tempo no sindicato como um dos caixistas,percussionistas,bateristas,ritmistas,eestudantes,comparando a pessoas que ali estão a 40 anos ou mais, mais me orgulho e sou completamente a favor da direção do novo conselho lá hoje(2013)formado e se moldando no dia dia a sindicância dentro do sindicato, hoje estabelecida como nova e ativa, e sei da luta aqui,para fazer justiça, e realmente fazer o artista ter seus direitos neste pais que precisa de muita coisa errada ser certa, quando será?
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