sábado, 17 de dezembro de 2011

Revista Esquinas #50 - FIM DO MUNDO

Outra belezinha que saiu há pouco foi a Revista Esquinas #50, produzida pelos alunos de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e coordenada por nós do Núcleo Editorial. Leia:



Essa foi a edição com a qual mais me envolvi. Confira a seguir algumas páginas que ficaram sob a minha responsabilidade (clique para ampliar!):

Projeto NASA - O infográfico da página da direita deu trabalho. Inspirado nas produções da Superinteressante, levei cerca de 30 horas para apurar as informações e montá-lo.


Massacres no Brasil - Primeiras páginas a serem diagramadas durante todo o processo. Não tinha trabalhado muito com círculos até então e tampouco havia visto coisas do tipo nas últimas edições da revista. Acredito que tenha sido uma boa inovação para o Esquinas!


Mercado da guerra - Minha referência nessa pauta foi o excelente infografista italiano Francesco Franchi. Seus trabalhos são impressionantes e sempre fico de olho no que ele anda fazendo. Essas páginas estão entre as mais trabalhosas - levei cerca de 13 horas em cima dos gráficos. 


Obrigado Fernanda, Petrus, Tiago e a todos os alunos pelo excelente trabalho!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Revista CÁSPER #5

Ficou uma belezura a nova edição da Revista Cásper, produzida no Núcleo Editorial da Faculdade Cásper Líbero - a minha primeira como editor de arte.

Na página 52, leiam "A Arte de Sujar os Ouvidos", matéria que fiz sobre jornalistas que escrevem sobre música. Foi ilustrada com imagens feitas por Amanda Nogueira da belíssima coleção de discos que seu pai possui.



Mais informações sobre a revista aqui.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

"Não sou um guia de consumo" - Jotabê Medeiros

Durante Congresso de Jornalismo na UFSC // Foto - Rodolfo Conceição

por Pedro Godoy e Renan Goulart


Seria mais uma das muitas cabeças perdidas no mar de mesas e papéis espalhados pela redação do Estadão, se não fosse, antes de tudo, uma cabeça perdida em música. Eis Jotabê Medeiros: camiseta branca, calça e jaqueta jeans, aparência tranqüila e ar jovial, apesar dos cabelos brancos. A indumentária ajuda a escurecer um pouco os cabelos, mas percebe-se que já não é nenhum garoto. São mais de 25 anos de carreira. A maior parte deles no próprio Estadão.

Formado em jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina, Jotabê iniciou a carreira em 1985, escrevendo para a extinta revista SomTrês. Conseguiu o emprego após mandar um ensaio sobre o disco The Wall, lançado em 1979, pela banda Pink Floyd. Veio para São Paulo em 1986, a convite do jornal O Estado de S. Paulo. Trabalhou também na Folha de S.Paulo e na rede de televisão CNT/Gazeta, até retornar ao Estadão.

Jotabê deixa claro que sua especialidade é música Pop. Acompanha tudo o que lhe é possível acompanhar. Se há alguma novidade em algum cenário musical do país, seja São Paulo, Porto Alegre, Brasília ou Recife, lá está ele. Em suas palavras: “é preciso identificar essas coisas antes que tenhamos que ler na Uncut ou na Rolling Stone americana”. Por outro lado, não abre mão de clássicos como David Bowie e Lou Reed. Fundamentais, segundo ele próprio. Em entrevista concedida, Jotabê fala sobre a carreira, o que o inspira a escrever e explica por que o crítico deve ser ouvido. Conta algumas de suas desavenças com medalhões da música brasileira e esclarece que um Ipod não é o bastante para que os artistas consigam elogios dele.

Como foi o começo da sua carreira como crítico, como veio parar aqui?
Em 1985, eu estava cursando Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná, onde me formei em jornalismo. No último ano de faculdade, não tinha nada pra fazer, só ouvia música a tarde inteira. Poxa, eu precisava ganhar a vida. Peguei um disco que não era tão velho, mas já era velho na época, o The Wall, do Pink Floyd, e fiz um ensaio bem grande sobre ele. Coloquei num envelope e mandei para a revista Som Três. O editor era o Mauricio Kubrusly, hoje repórter do Fantástico, que me ligou um dia dizendo que tinha lido meu texto e gostado bastante. Então, me chamou para escrever resenhas de discos para eles.
Em 1986, eu trabalhava na Folha de Londrina e, na época, o Caderno2 do Estadão estava sendo lançado. O editor era o Luiz Fernando Emediato, que estava recrutando jovens jornalistas para compor a equipe do novo caderno. Ele me ligou dizendo que tinha lido um texto meu e que estava precisando de um cara como eu. Então, me fez uma proposta. Era uma quinta-feira e ele precisaria de mim na segunda, em São Paulo. Quando eu ouvi o salário, que dava um pouquinho mais do que eu ganhava lá, falei: “tranqüilo, segunda-feira estou aí!”. Peguei as malas, desembarquei na rodoviária do Tietê e isso já faz 25 anos

Por que o crítico deve ser ouvido?
Essa é uma questão fundamental da atividade. Teve uma época que chegavam toneladas de lançamentos em discos e, depois, em DVD. Alguém tinha que fazer a triagem disso, dizer o que é fundamental ou não. O crítico ficou meio que o cara que fazia essa seleção. Eu o vejo de um ponto de vista diferente. Além de ter esse papel, é o cara que separa o joio do trigo ou, pelo menos, ajuda o ouvinte comum a discernir o que pode ser fundamental do que não é. É óbvio que isso não funciona como lei, cada um gosta do que quiser. Não sou um guia de consumo. Eu tenho a pretensão de que o texto possa permanecer e tenha uma função, digamos, reveladora de sua circunstância: em que período foi feito, como se pensava nessa época, qual era a idéia que as pessoas tinham de arte. O texto de crítica permite tudo isso: que haja uma liberdade, dentro da ação jornalística, de linkar com eventos da política. Eleição do Obama e Lollapalooza foi “o” assunto, em 2008. Se você não consegue captar o que está vivendo, qual seu lugar no mundo e transferir isso pro seu texto, então a função do crítico fica um pouco descartável.

O que você acha da crítica que é feita atualmente?
A crítica de música já passou por várias fases. No Brasil, ela é muito recente. É uma coisa que começa profissionalmente mesmo nos anos 80. Antes disso, era muito esporádica e não tão profissional. Os caras que trabalhavam com isso, tipo o Nelson Motta, eram também promotores de shows ou tinham relações com bandas, como o Ezequiel Neves. Eu sou da segunda geração dessa crítica contemporânea de pop e rock. Hoje em dia temos a internet, que nos permitiu uma nova relação com a música; tanto é que o disco não existe mais, praticamente. Uma coisa curiosa é que os grandes embates críticos ainda são travados nos velhos veículos, como Folha, Estadão e O Globo. A crítica tradicional é ainda a que tem o papel mais ativo.

É importante que o crítico musical tenha conhecimento musical, de teoria ou que saiba tocar algum instrumento?
Essa é uma discussão antiga. Eu acho que não. Conheço gente que toca maravilhosamente bem, faz coisas incríveis, consegue compreender obras de uma forma muito complexa, mas não consegue escrever direito uma linha. Conheci críticos que eram ótimos músicos e outros que só sabiam tocar campainha, como eu mesmo. Às vezes, vou a shows com amigos e todos comentam que foi do caralho, como o da Sharon Jones, recentemente. Depois você vai ler os blogs deles e os textos que escreveram a respeito são precários, uma bosta. Por quê? Eles sacaram que os Dap-Kings são ótimos músicos, que aqueles instrumentos valvulados fazem um som vintage, diferente. E, no fim, o que você tem? Um problema de transcrição do que você viu. Eles não conseguem descrever as coisas, fazer uma tradução.

Quando você escreve, procura abordar quais pontos? Tem algum critério objetivo?
Tem atitudes diferentes pra um show de rock, pra um de pop, jazz, que seja. Por quê? É uma circunstância social. Ele é irrepetível. Já o disco exige conhecimento historiográfico. Por exemplo, você ouve o novo disco do Arctic Monkeys. Para falar sobre ele, é bom que você tenha conhecido Syd Barret e os primórdios da música psicodélica inglesa, senão vai achar que eles acabaram de inventar alguma coisa. Por isso eu te digo: é uma formação complexa, que, aliás, não tem escola. Você tem que ter uma disciplina para poder ouvir o máximo que puder, ver o máximo que puder e tentar se preparar para poder ter essa base.

E por que música? Não tem interesse por outras áreas?
Tenho, claro. Para ser bem sincero, gosto muito de esportes. É que a vida empurra a gente para as coisas com que você tem afinidade. Eu tenho uma particularidade dentro do mundo do jornalismo cultural que é escrever sobre várias coisas. Faço muita reportagem de política cultural, por exemplo, que é algo que tem poucos especialistas no Brasil. Faço porque vi a necessidade, a partir dos anos 1980, e fui meio que empurrado para isso. Eu conheci as leis de incentivo. Alguém tem que fazer isso porque é um foco de financiamento público, tem dinheiro público envolvido, muita picaretagem. É bom que alguém faça.

Sobre a formação em jornalismo cultural, como você a vê?
Acho que tem muita gente “cagando regras”, pra usar uma expressão da minha época, dizendo o que tem que ser feito etc. Mas, em geral, são pessoas muito familiarizadas com a “arte” de escrever artigos de jornalismo cultural. A reportagem é muito fraca, do ponto de vista bibliográfico. Ninguém se preocupa em mostrar quais são os princípios que devem nortear uma boa reportagem de jornalismo cultural ou como tem sido o desenvolvimento dessa área no Brasil desde o primeiro caderno do tipo. Vejo também uma grande dificuldade das pessoas, que acham que, por terem sido contratadas por um caderno de cultura, são críticas e não fazem mais nada, como se jornalismo fosse isso. Você tem que estar atento à área Policial, de Política e muitas outras. Jornalismo cultural está inserido dentro disso, assim como Economia, Esportes. Tem cara que acha que é abençoado por Deus e que, portanto, não vai fazer mais nada além de dizer o que ele pensa sobre o show dos Strokes, no esquema do “gosto” ou “não gosto”. Como se a sua opinião fosse a coisa mais importante do mundo. Opinião todo mundo tem. A sua tem que ser qualificada e servir para um tipo de revelação. Revelar para o leitor que ali tem uma engrenagem, tem algo acontecendo.

Uma coisa muito falada dentro do meio musical é o chamado jabá. Um caso claro em que houve isso, muito divulgado, foi o da Maria Rita. Ela distribuiu ipods à imprensa com seu disco. Como isso acontece?
Nesse caso do ipod, na época, o aparelho custava quanto? Uns mil reais, não sei. Na verdade, hoje seria um pendrive, mas na época era um fetiche de classe média. Os caras mandaram uns dez daqueles para as redações, com as músicas do disco. Não tinha como não receber, senão não ouvia o disco. Isso foi uma coisa meio cabotina da Veja [a revista publicou uma dura matéria classificando o ocorrido como “mensalinho” da Maria Rita]. Acho legal que você seja criterioso nesses casos. Não acho que a Veja foi errada, tem que patrulhar mesmo.
Só que eu fui no show da Madonna e tinha um camarote da Renner só para VIPS. Eu vi quatro editores-executivos da Veja lá. Cada ingresso daquele custava 600 reais e eles não pagaram para estar lá. Foram convidados pela Renner, o patrocinador-máster, que colocou muito dinheiro ali. Eles não aceitaram o iPod, mas aceitam convites como esse, que os compromete com patrocinadores e esquemas de favorecimento, apesar de não estarem a trabalho. Então, que isenção têm para criticar o cara que aceita uma caixa de CDs para criticar?
Você não tem confiabilidade durante 25 anos fazendo um jogo desses. Os jornais devem ter o cuidado de recusar certos tipos de convite. Aqui, por exemplo. Sou empregado do jornal e ele se livra de mim a hora que quiser. Meus editores estão de olho em mim e tenho que prestar contas pra eles apenas. Nessa área de cultura, é meio irrelevante falar a respeito porque a gente recebe uma caixa de CDs do Gilberto Gil, por exemplo. Todo mundo recebe, é material de trabalho. Você pode devolver ou não, fica a seu critério. Sinceramente, nunca vi nenhum colega ser corrompido por uma caixa de CDs do Gilberto Gil. Isso é uma besteira tremenda.
Então é preciso avaliar essa questão com certo cuidado. O jabá que a Veja mencionou, no caso da Maria Rita, acontece em rádios de uma maneira muito mais perniciosa: obriga o ouvinte a ouvir determinadas coisas.
Esse esquema que existe, que é milionário, de reprodução de um padrão de gosto, é que tem que ser combatido. Aplicar isso ao coitado do cara que recebe uns discos do AC/DC para fazer uma resenha é um despropósito.

Quando vai cobrir um show, você paga pelo seu ingresso ou vai pelo Estadão?
Você sabe como é São Paulo. Se eu fosse entrar na fila para comprar ingressos de shows no auditório do Ibirapuera, como os do Wayne Shorter, do Joshua Redman e da Sharon Jones, eu jamais ia conseguir. Não tem como. Nisso, a gente depende exclusivamente do promotor, que ele tenha interesse de ter uma análise daquilo e respeite a absoluta neutralidade que teremos naquilo. Se acharmos uma merda, vamos escrever isso, como sempre foi. No disco da Maria Rita, por exemplo, escrevi que era uma bosta [risos], que ela é um clone mal-ajambrado da mãe dela. É o que eu acho mesmo. O cara me deu um ipod para falar mal de um produto dele. Não faz sentido.
Não tem como disputar ingresso nesses eventos que somos convidados e o credenciamento é uma forma de garantir que terá um representante do jornal por lá. Quando você tem 10 mil pessoas aqui para ver a Amy Winehouse, é preciso que tenha gente lá cobrindo. É um evento social que pode envolver, às vezes, alguma tragédia. Você tem que ter reportagem presente em todos esses lugares. Os promotores entendem isso e, invariavelmente, eles são criticados. A organização de grandes shows em São Paulo está longe de ser perfeita. É muito precária, tem problemas sérios. Foi o caso do SWU, por exemplo, que foi massacrado pela questão dos banheiros. Era um evento meio Woodstock, não tinha como transformar o lugar em um Teatro Municipal, entende? Era uma fazenda! Foi criticado mesmo assim, todos estando lá a convite do promotor.
É preciso ver isso. Não vejo como alguém pode ser corrompido dessa maneira. Nunca vi, aliás. Eu já vi gente que escreve mal, defende mal seu ponto de vista. É pior do que um cara corrupto. Aliás, o que é corrupção em jornalismo cultural? Aceitar um convite para ir a um show? Essa liberdade de escrever sobre o que quiser, essa autonomia, é que faz com que as pessoas tenham respeito por você.

É você quem escolhe sobre o que irá escrever? Como o faz?
Hoje em dia, quase sempre, tirando um ou outro caso. Por exemplo, se vem o U2 na cidade, não tenho como escolher. Vou ter que ir para o Morumbi, ficar em porta de hotel, fazer plantão e tal. Por quê? É a maior banda do planeta, que tem a turnê mais lucrativa da história. Tem fatos que são muito maiores do que a minha vontade no momento.
É muito legal para um jornalista, que está iniciando a carreira, saber o seguinte: você só não engole sapo quando você tem suas próprias pautas. Não pode deixar que a “agenda” te engula. Você tem que chegar antes dela e fazer com que ela fique em segundo plano, entendeu?
São Paulo hoje é a maior metrópole da América Latina, de cultura. Para dar conta disso, é preciso ter profissionais muito bem preparados. Se você não se cuida, vive refém disso, o que é ruim porque o jornal legal mesmo é aquele que pára e pensa o que está acontecendo. Como no caso do manguebeat, um movimento interessante. É preciso identificar essas coisas antes que tenhamos que ler na “Uncut” ou na “Rolling Stone” americana. É melhor você descobrir por si mesmo e impor essa pauta, deixando de lado o fulaninho do StudioSP, que está lá toda semana

Você tem algum tipo de relação com músicos?
Não. Tenho um ou dois amigos músicos. Aliás, tenho poucos amigos. Mas freqüentar casa de músico não faz a minha cabeça. Eu vejo isso de uma maneira meio complicada. Sei que vários colegas fazem isso com bastante tranqüilidade, sem problema nenhum. No meu caso, eu prefiro evitar. Não gosto de ser amigo de ninguém porque sei que vou ser interpelado por qualquer coisa que eu falar. Então, é melhor que eu seja interpelado como um estranho.

Algum músico já te ligou reclamando de uma crítica que você escreveu?
Vários. Em alguns casos foram brigas mais sérias, como com o Caetano Veloso. Eu falei que o show com o Roberto Carlos era “naftalínico”, tinha cheiro de naftalina. Ele ficou furioso e me atacou no seu blog durante uma semana. Eu acabei respondendo no meu próprio blog também.
O próprio André Abujamra, na época do segundo disco do Karnak, sobre o qual escrevi que era ruim, não gostou. Nós tínhamos uma boa relação desde a época da banda Os Mulheres Negras, nos anos 1980. Então, ele deu uma entrevista furiosa dizendo que eu era um bosta e que tinha até feito uma música pra mim, pra me sacanear. Nunca ouvi a música. Deve ser boa porque sempre que você faz alguma coisa com raiva sai legal [risos].

Depois que a Bizz parou de circular, não temos nenhuma revista de música. Você sente falta desse tipo de publicação?
De fato. É difícil porque não tem quem banque. Antes, das gravadoras bancavam as revistas. Você vê que tem uma face que não é tão boa no desaparecimento das gravadoras. Elas tinham grana, bancavam, mas aí exigiam certas coisas, não é? Revista é complicado. Qualquer um pode pegar o conteúdo e, em dois minutos, colocar na internet. Por que o cara vai comprar a revista? Esse é o problema. Por que vou investir numa revista cujo lucro é pequeno? É que nem música. Por que o cara vai investir num disco se ele não pode vendê-lo?


[atualização] Confira matéria sobre críticos musicais na Revista Cásper #5 aqui.